quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Entre as muralhas de Chiang Mai

Depois de uma noite sem dormir no percurso de Bangkok a Sokhothai, senti-me com sorte por poder fazer uma viagem noturna até Chiang Mai em um autocarro com direito a um lugar sentada. A viagem durou cerca de seis horas. Chegamos à cidade pelas oito e meia da manhã do dia 31 de dezembro. Juntámo-nos a um grupo de turistas que tentavam negociar um preço razoável para que nos transportassem até ao centro da cidade. Conseguimos que o transporte ficasse por 30 bahts (menos de 1€).
A partir dali foi fácil encontrar o hostel que tínhamos reservado por 150 bahts (cerca de 4€). Saiba-se que ficámos tão maravilhados com a relação qualidade/preço que mal chegamos, pedimos para prolongar a estadia por mais uma noite. Instalamo-nos e fomos explorar a cidade, outrora capital da Tailândia, atualmente, uma das mais importantes cidades do país.
Entre as muralhas que ainda se mantêm de pé, existem vários templos admiráveis, mas também muito comércio de restauração com tendências ocidentais. Fomo-nos perdendo pelas ruas. Há por ali vários mercados e comida de rua. Os costumes são bastantes semelhantes, já o sotaque é algo diferente daquele que se ouve na capital.
Ao final da tarde voltámos ao hostel. Preparávamo-nos para o último jantar de 2015. Quando saímos do quarto deparámo-nos com um ambiente de festa, com direito a karaoke, que reunia tailandeses e estrageiros. Juntámo-nos à volta da piscina e de imediato fomos presenteados com um peixe e carne grelhados e salada para acompanhar; para beber disseram-nos que havia uma geladeira com cervejas e sumos, e que nos podíamos servir de lá. Cantamos e rimos muito; enquanto isso, assistíamos a um autêntico espetáculo de luzes no céu, lançadas para receber o novo ano.
Cerca das onze da noite fomos para o interior das muralhas da cidade, a partir de onde estavam a ser lançadas as ditas luzes. Pelo caminho, deparámo-nos com uma cerimónia budista. Nunca tinha visto uma. Aproximamo-nos. De imediato trouxeram-nos cadeiras, água e convidaram-nos a ficar. Embora não tenha conseguido perceber nada do que ali estava a ser dito, foi interessante sentir a calorosa receção, bem como compreender a dinâmica da celebração.
Seguimos caminho. Compramos as nossas lanternas e lançamo-las ao ar. Eram apenas três entre milhares que invadiam o céu de Chiang Mai naquela noite. A sensação foi ótima e o meu paladar agradeceu o facto de me ter livrado das doze uvas passas que a minha mãe faz questão de contar minuciosamente, para eu comer aquando das doze badaladas.
Viajar também é desgastante, por isso voltámos cedo para o hostel. Pelo caminho brindaram-nos com vários sawadee pee mai (em português, feliz ano novo). Assim foi passar as últimas horas de 2015 e os primeiros instantes de 2016 do outro lado do mundo. Para começar a manhã do primeiro dia do ano houve banho na piscina e massagem tailandesa, em jeito de preparação para os dias que se avizinhavam pelas gélidas montanhas do norte.  
Com tão bons encontros acho que a Tailândia já tem um lugar especial o meu coração. Sinto-me um verdadeiro Joaquin Phoenix, em Her: "Sometimes I think I have felt everything I'm ever gonna felt. And from here on out, I'm not gonna feel anything new. Just lesser versions of what I've already felt".

Sawadee pee mai a todos!

Being part of thai

Hostel Teeraya, Chiang Mai

Chiang Mai, 1 de janeiro de 2016  

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Primeira paragem: Sukhothai

Antes de chegar ao Vietname decidi estabelecer um roteiro para poder parar em alguns lugares que tenho muita vontade de conhecer. Juntei-me a mais dois amigos que fiz na Thong Tos Foundation e, parte do percurso, será feito na companhia deles. Ainda em solo tailandês, a primeira paragem seria Sukhothai. 
O comboio estava marcado para as dez da noite. Chegamos à estação de Hua Lamphong, em Bangkok, cerca de trinta minutos antes da hora prevista. Ainda não tínhamos bilhetes. Acreditamos, ingenuamente, que iriamos conseguir bilhetes em terceira classe sentados. Disseram-nos na bilheteira que apenas havia bilhetes em pé. Pensamos: só mais uma aventura ao estilo thai, para uma viagem com a duração de seis horas e meia - acreditando na pontualidade dos transportes, algo pouco comum por aqui.
Conseguimos ir sentados a viagem toda; trocamos de lugar de acordo com a entrada e a saída dos passageiros. Pouco dormimos. Os comboios são desconfortáveis e o barulho que fazem é pouco propício ao exercício do sono. Além disso, há tailandeses a venderem tudo o que possam imaginar pelo comboio. Também pode acontecer conhecerem o Game e seu amigo - dois tailandeses que viajavam na mesma carruagem que nós. Enquanto o Game tentava confortavelmente relaxar no seu lugar, o amigo destabilizou o sono de alguns tailandeses, que aproveitavam a viagem para fechar os olhos. Primeiro deixou cair uma mala bem pesada em cima da cabeça de uma senhora que estava sentada ao meu lado - logo a seguir desfez-se em desculpas, vimos que não foi propositado; depois fez com que dois tailandeses, sentados no banco da frente, se levantassem várias vezes à conta de uma tenda de campismo que o amigo do Game quis guardar debaixo dos bancos. Percebemos que era só uma boa alma sem sono, porque acabou por ceder o seu lugar a uma senhora que ali estava, como nós, sem lugar sentado. Há sempre episódios destes, que nos animam e que fazem esquecer o desconforto ou as horas mal dormidas.
Chegamos a Sukhothai apenas cinco minutos atrasados - algo inédito nesta Tailândia sem horas certas. Precisámos de apanhar um tuk tuk e uma mini van até chegarmos ao destino. Este trajeto levou algum tempo e por isso, quando paramos no centro histórico de Sukhothai já o sol havia nascido. 
Sem dormir, decidimos alugar bicicletas e começar a explorar a cidade, antes que o sol ficasse mais forte e nos dificultasse a vida. Deixamos as mochilas aqui no sítio onde alugamos as bicicletas. Inicialmente ficamos apreensivos, mas depois acabamos por perceber que ou as deixávamos ali ou íamos passar o dia a carregá-las.
A cidade está recheada de templos que contam a história de uma Tailândia medieval, numa altura em que Sukhothai era capital do Reino, antes de ser absorvida pelo Reino de Ayutthaya.
Passamos o dia a pedalar e depois do almoço decidimos descansar as pernas debaixo de uma árvore. Estava uma brisa ótima, como nunca tinha sentido antes aqui na Tailândia. Demos mais umas voltas pela cidade de depois resolvemos vir até à rodoviária para saber a que hora tínhamos autocarro para o próximo destino. 
O autocarro é só às duas da madrugada, já cá estamos desde as seis da tarde. Aproveitamos o tempo de espera para comer umas sanduíches e para tomar banho - saiba-se que no lugar de um chuveiro há apenas uma torneira, um balde e uma bacia... ah, e alguns répteis, para que em momento algum haja a hipótese de nos sentirmos sós. Para nosso espanto existe wifi e eletricidade disponível para carregar baterias aos nossos gadgets. Há também muitos insetos cheios de teimosia e imunes ao repelente. Na verdade, acho que não nos falta nada. 
A chegada a Chiang Mai está prevista para as sete da manhã. Vamos passar a noite de trinta e um de dezembro para um de janeiro nesta cidade, depois continuaremos para norte. Espero que possamos vir a encontrar muitos Games e amigos nesta viagem, e que o imprevisível thai style nunca pare de nos surpreender, só assim fará sentido.  









Sukhothai, 29 de dezembro de 2015.


Até já, Bangkok!

Cheguei a Bangkok há três semanas. Sentia-me receosa, mas confiante de que estava a fazer exatamente aquilo que a minha vontade pedia. Vim sem planos e sem conhecer ninguém. Comigo trouxe umas peças de roupa, a câmara fotográfica e uma vontade imensa de conhecer mundo.
Vim sozinha, mas até então, em momento algum, me senti como tal. Os voluntários e todas as pessoas que se foram cruzando comigo por aqui, fizeram-me sentir em casa. Senti paz. Senti liberdade cada vez que peguei na bicicleta para pedalar sem rumo, entre o trânsito caótico desta cidade - perguntei-me, inclusivamente, há quanto tempo não andava de bicicleta em Portugal e não me soube responder. Senti amor cada vez que entrei na sala de aula e tinha os pequenos a correr em direção a mim para me abraçarem, enquanto gritavam “teacher, teacher…”. Ensinei-lhes em inglês as cores, os números até dez, os animais, os meios de transporte, a comida, o hi five e o hi ten… Mas a verdade é que a grande lição ficou do meu lado e eu não me podia sentir mais grata por isso.
Embora estas últimas semanas tenham passado à velocidade da luz, estou com a sensação de que já cheguei há imenso tempo. Acho que isto se explica pelo facto de ter vivido dias muito intensos onde observei, conheci e absorvi tudo o que me foi permitido.
Há cerca de uma semana recebi uma proposta de uma instituição para ir para o Vietname dar aulas de inglês, também em regime de voluntariado. Decidi aceitar. Vou trabalhar com crianças, tal como tenho feito na Tailândia. Por isso, hoje foi dia de dizer até já a Bangkok. Faço-o com muita nostalgia, por saber tudo o que vivi nesta cidade foi genuinamente bom e me encheu a mente de paz. Na aula desta manhã levei rebuçados para as crianças e prometi voltar. Assim será. Regresso à Thong Tos Foundation em Fevereiro, para dar e receber muito amor antes do regresso a Portugal.
Antes de chegar ao Vietname, aguardam-me alguns quilómetros de viagem divididos entre autocarros, comboios e tuk tuks, com algumas paragens pelo meio. Deixo-vos com uma reflexão com a qual me deparei no meio viajário e que tem enchido de sentido os meus dias pela Ásia. 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Foi Natal na Thong Tos Foundation

Na Tailândia cerca de 90% da população é budista, a restante percentagem é muçulmana. Sendo que o Natal se trata de um símbolo da religião cristã, é natural que os tailandeses não encontrem qualquer afinidade com esta celebração. Porém, para meu espanto, todos falam no Natal e, inclusivamente, celebram-no, mas não o associam a algo religioso. Quando perguntamos aos nossos alunos o significado do Natal, eles não sabem responder. O Natal para eles é o Pai Natal, a árvore de natal, as renas, as luzinhas que piscam e a neve (algo que nunca os seus olhos terão visto). Numa das aulas tentamos explicar-lhes que o Natal é a união da família, estabelecendo uma ligação como os restantes simbolismos.
Quando decidi embarcar nesta aventura, estava consciente de que o Natal iria ser passado de forma diferente, pela primeira vez em 23 anos. Mas, como eu, todos os voluntários que aqui estão estavam na mesma situação que eu. Por isso, ao contrário de nos lamentarmos, decidimos fazer o nosso próprio Natal. Os companheiros cariocas prontificaram-se para concretizar a ementa. Para o jantar houve salada, bifinhos de frango grelhados, arroz preto, tapas e feijão tropeiro; para a sobremesa uma deliciosa palha italiana. Acompanhamos o jantar com vinho australiano e a mítica Chang - uma cerveja tailandesa. 
Jantamos na sala da fundação. A nós juntaram-se a Miss Dang e o Sine - o thai que vive connosco aqui na fundação. Agradecemos o jantar conforme a religião cristã, em português e em holandês, e em muçulmano. Foi difícil pronunciar, mas no fim percebemos que "amén" é universal.
Antes da meia noite subimos para o terraço. Brindamos a entrada na madrugada do dia 25 de dezembro com a troca de prendas - uns dias antes decidimos fazer o amigo oculto e comprar algo simbólico para oferecer. 
O jantar de Natal prolongou-se pela madrugada ao som da música e das histórias que partilhamos. Foi fácil sentir-me em casa com estas pessoas, cujas diferenças culturais se tornam pouco representativas, face àquilo que nos moveu até aqui e onde encontramos tanto em comum.
No dia seguinte acordamos e fomos para a Escola Wat Kanlaya - fica muito próxima da fundação. Havia uma festa de Natal onde fomos convidados a estar presentes. A tarde dividiu-se entre várias atividades relacionada com o Natal, em inglês. Cantamos, dançamos, brincamos e ainda houve tempo para fazermos a nossa própria arvore de Natal em papel. 
Em algum momento me senti nostálgica por não estar no habitual Natal em família. A verdade é que o Natal, nos dias que correm, é mais visto como um pretexto para reunir família e amigos. Categorizamo-lo como "o dia mais quente do ano", porque nos sentamos à mesa com aqueles que nos fazem sentir amados; contamos histórias, rimos e avivamos memórias de tempos idos. Acho que precisamos de mais Natais nas nossas vidas, precisamos de amar mais e de julgar menos; precisamos de deixar de fazer do Natal um pretexto para nos reunirmos com aqueles que amamos e fazê-lo, simplesmente, porque são esses momentos que nos fazem sentir vivos.



Bangkok, 25 de dezembro de 2015. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sentir-me em casa a 10562km de distância

A Miss Dang chegou cá a casa cerca das dez da manhã, trouxe ingredientes e alguns ajudantes que já fazem parte da família. Um deles é o responsável pela limpeza do nosso andar e costuma dormir num dos quartos da fundação. Só sabe dizer "hello" e "how are you?", mas transparece uma alegria contagiante tão tailandesa, que é impossível ficar indiferente.
Ainda dormíamos quando chegaram. Acordamos com as suas vozes entusiasmadas e prontificamo-nos a por as mãos na massa - literalmente. Profissionalismo não nos faltou. A Miss Dang trouxe chapéus cor-de-laranja para todos e fez questão que usássemos enquanto amassávamos a massa para as panquecas. 
Era preciso fazer uma quantidade grande de massa para um evento que iria acontecer durante a tarde. Algo organizado pelos locais, onde a Miss Dang se faria representar, a si, à sua comunidade muçulmana e à escola que dirige. Explicou-nos que o evento iria reunir budistas e muçulmanos. Agradou-me desde logo saber que estas pessoas conseguem conviver em conformidade, independentemente das crenças religiosas que seguem.
Durante o processo houve tempo para ensinar a Miss Dang a contar até dez em português. Disse-me que em chinês era mais simples para ela, talvez porque a fonética tem mais semelhanças. Mas olhem que se saiu muito bem.        
O evento estava marcado as três da tarde. Dissemos que iriamos estar presentes, por isso, a Miss Dang presenteou-nos com umas t-shirts cor-de-laranja para usarmos. 
A festa teve lugar num templo aqui nas redondezas. Havia música, danças protagonizadas pelos mais pequenos, peças artesanais feitas por mãos locais, jogos para pequenos e graúdos, comida e muita alegria.
Logo no início repescaram-me para dar uma ajuda com as panquecas. Era preciso recheá-las com chocolate, leite condensado e açúcar; e, por fim, oferecer a quem quisesse. Encheram-nos de amor e carinho. Houve pessoas que sem nos conhecerem de lugar algum nos ofereciam comida e bebida.
Nunca tinha imaginado começar um domingo a fazer massa de panquecas para alimentar centenas de tailandeses. A probabilidade de me surpreender aqui, a cada dia que passa, é enorme. É também por isso que estar aqui tem feito sentido todos os dias, faz-me sentir em casa e feliz, muito feliz. Acho que encontrei o meu lugar no mundo. 

Aline, eu e Miss Dang.

Eu e Aline a amassar a massa para o pão.

Eu e o thai a amassar a massa para o pão.

Voluntários e crianças muçulmanas.

Sim a dar uma ajuda com as panquecas.

Eu a ajudar com as panquecas.

Júlia a dar uma ajuda na degustação.

Ambiente da festa.

Bangkok, 20 de dezembro de 2015.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Ensinar e receber milhões de abraços

Quando cheguei a Bangkok avisaram-me que só iria começar a dar aulas na semana seguinte. Uma vez que havia sido o aniversário do rei, a semana estava em standby. Aproveitei os dias livres para explorar e, sobretudo, para perceber as pessoas, as rotinas e esta cultura que me tem surpreendido todos os dias. 
No domingo, encontrei o Mr. Nop no pátio da escola - o marido da Miss Dang, a diretora da escola. Perguntou-me se já sabia onde ia dar aulas no dia seguinte. Respondi-lhe que não. 
É algo difícil compreendê-lo, porque ele fala pouco inglês, diz algumas palavras, mas não constrói frases exatas. Porém, é muito esforçado e digo-vos, é a pessoa mais querida a falar inglês que eu já vi. Ele é o típico tailandês baixinho, ri muito e é bastante expressivo. 
Perguntei-lhe se era possível falar com a Miss Dang uma vez que ela é mais percetível. Ligou-lhe de imediato e passou-me o telemóvel para falar com ela. Fiquei a saber que na segunda e na terça iria ficar com os "babies" dos dois aos quatro anos - como referiu o Nop, apontando insistentemente para as fotografias deles que estão na porta da sala de aula.  
A aula estava marcada para as dez da manhã. Acordei cedo e desci com meia hora de antecedência. Fiquei a espreitar da janela da sala e não tardou para que ficassem histéricos assim que me viram. 
Quando saíram da sala para lanchar, aproximei-me deles e já não me largaram mais. Abraçavam-me muito, riam ainda mais. Não demorei a sentir que aquelas crianças de pés descalços têm tudo o que interessa: amor, muito amor.
Entraram na sala em fila indiana. A professora deles, que por sua vez também não fala inglês, ficou a assistir à aula e ia tentando manter a ordem. Foi a Roshni quem manteve a comunicação entre mim e a professora. A Roshni é uma menina indiana, de onze anos, super inteligente, fala muito bem inglês e vem para a fundação dar uma ajuda nos momentos em que não tem aulas. 
A turma dos "babies" conta com certa de quarenta e cinco crianças. É difícil mantê-los atentos, por serem demasiado pequenos. Tentei ser o mais dinâmica possível. Através de imagens fui-lhes ensinando os números, as cores, os animais, as frutas e... ensinei-lhes o hi five e o hi ten. Deliraram. Fizeram uma espécie de Thai moche em cima de mim enquanto disputavam pelo meu hi five.
São demasiado ternurentos para serem de verdade. Tocam-me imenso, como se eu fosse um ser estranho, mas que os deixa muito felizes. Já me tinham dito que eles eram algo de outro mundo, poder sentir isso foi das melhores coisas que me aconteceu. Não falamos a mesma língua, mas estou certa de que nenhuma palavra pode substituir o carinho, o amor e os abraços que trocamos e que me têm preenchido o coração. 


Durante o lanche da manhã, antes da primeira aula.

Oferta dos materiais que trouxe de Portugal.
Foto de família.
A Roshni, de 11 anos.


   

sábado, 12 de dezembro de 2015

Bang Krachao: a paz em Bangkok

Acordamos cedo, apanhamos um tuk tuk e o BTS - uma espécie de metro de superfície que faz a travessia para o outro lado do rio. Quando chegamos percebemos que nos tínhamos esquecido do mapa da cidade. Tentamos pedir informações, mas é sempre difícil, uma vez que poucas pessoas falam inglês e também porque a forma como pronunciamos as palavras tailandesas, nem sempre é entendida pelos nativos. 
Fomos a um centro comercial, onde há um hotspot para turistas - só é necessário apresentar o passaporte e é atribuída uma password -, a partir daqui extraímos um mapa para tentar chegar a Bang Krachao. Bang Krachao é uma ilha cuja passagem é possível a partir de ferry ou por uma ponte. 
Ainda havia alguns quilómetros para caminhar. Fomo-nos perdendo pelos mercados que íamos encontrando e almoçamos num deles um prato típico - algo very spicy, claro está. É fascinante como este lado da cidade tem características bastante ocidentais. Existem muitos contrastes entre o thai que quer ser ocidental e o thai profundo, que prefere os mercados de rua aos centros comerciais que invadem esta parte da cidade. 
Já perto do destino final acabamos por nos perder, não estava fácil de encontrar. Deparamo-nos com um templo, onde entramos para explorar e voltar a ver o mapa. Estavam algumas pessoas no templo, entre elas crianças, a orar por um defunto que lá estava. 
A nossa presença foi notada. Não tardou a que nos presenciassem com inúmeros sorrisos e uma bandeja com quatro copos de água. É possível ficar indiferente a estes bons corações? Agradecemos com uma das poucas palavras que sabemos dizer em tailandês e bebemos aquela água, que nos deixou mais refrescados para continuar a caminhada. 
Antes de chegarmos a Bang Krachao, passamos numa central de correios onde entramos para pedir informações sobre a forma mais fácil de lá chegar. Entre o tailandês e o inglês lá nos conseguiram explicar. Já não havia que enganar. 
Chegamos ao porto, por fim. Fizemos a travessia de ferry. Foram cinco minutos maravilhosos na companhia de um condutor incrivelmente simpático, aliado a uma vista fenomenal para a ilha e para a cidade.  
Já em Bang Krachao alugamos bicicletas e fomos explorar a ilha. Tínhamos acabado de encontrar a paz, na frenética Bangkok. Lá é tudo mais calmo. Há habitantes na ilha; há carros e motas, que circulam seguindo à risca o desorganizado thai style, mas em pouca quantidade. Conhecemos o Iang que nos mostrou uma construção que estão a fazer e, antes de irmos embora, quis assinalar a nossa amizade com uma selfie e um pedido de amizade no facebook: "I'd like to see you again in Brazil or Portugal", disse com um sorriso contagiante. 
Seguimos a nossa nossa rota sem destino e, curiosamente, viemos dar novamente à casa do Iang. Aproveitamos para lhe pedir que nos enchesse as garrafas de água, mas ao invés disso trouxe-nos uma embalagem de garrafas para que levássemos água suficiente para o resto do trajeto. 
O dia terminou. Dei por mim a pensar no tempo que havia passado desde a última vez que andei de bicicleta em Portugal. Senti-me muito feliz em Bang Krachao. Senti amor e liberdade. 
Antes de vir para a Tailândia disse que, apesar da falta de humanismo ter vindo a ganhar cada vez mais expressão, ainda acreditava que as pessoas fossem o melhor do mundo. Isso tem feito sentido desde que cá cheguei. Estou fascinada com a forma como recebem, sorriem e cumprimentam cada vez que passamos na rua. Estou certa de que se assim não fosse, este lugar perdia grande parte do seu brilho.
Uma amiga perguntou-me se eu agora já percebia o porquê de ela sentir tanto a falta da Ásia na vida dela, depois de ter cá passado uma temporada. Agora sim, entendo. E desejo que um dia todos o possam entender da mesma forma. 

Copo de água oferecido no templo

Motorista do ferry

Templo em construção

Casa flutuante em Bang Krachao

Ponte flutuante em Bang Krachao



     Bang Krachao, 11 de dezembro de 2015.