Na Tailândia cerca de 90% da população é budista, a restante percentagem é muçulmana. Sendo que o Natal se trata de um símbolo da religião cristã, é natural que os tailandeses não encontrem qualquer afinidade com esta celebração. Porém, para meu espanto, todos falam no Natal e, inclusivamente, celebram-no, mas não o associam a algo religioso. Quando perguntamos aos nossos alunos o significado do Natal, eles não sabem responder. O Natal para eles é o Pai Natal, a árvore de natal, as renas, as luzinhas que piscam e a neve (algo que nunca os seus olhos terão visto). Numa das aulas tentamos explicar-lhes que o Natal é a união da família, estabelecendo uma ligação como os restantes simbolismos.
Quando decidi embarcar nesta aventura, estava consciente de que o Natal iria ser passado de forma diferente, pela primeira vez em 23 anos. Mas, como eu, todos os voluntários que aqui estão estavam na mesma situação que eu. Por isso, ao contrário de nos lamentarmos, decidimos fazer o nosso próprio Natal. Os companheiros cariocas prontificaram-se para concretizar a ementa. Para o jantar houve salada, bifinhos de frango grelhados, arroz preto, tapas e feijão tropeiro; para a sobremesa uma deliciosa palha italiana. Acompanhamos o jantar com vinho australiano e a mítica Chang - uma cerveja tailandesa.
Jantamos na sala da fundação. A nós juntaram-se a Miss Dang e o Sine - o thai que vive connosco aqui na fundação. Agradecemos o jantar conforme a religião cristã, em português e em holandês, e em muçulmano. Foi difícil pronunciar, mas no fim percebemos que "amén" é universal.
Antes da meia noite subimos para o terraço. Brindamos a entrada na madrugada do dia 25 de dezembro com a troca de prendas - uns dias antes decidimos fazer o amigo oculto e comprar algo simbólico para oferecer.
O jantar de Natal prolongou-se pela madrugada ao som da música e das histórias que partilhamos. Foi fácil sentir-me em casa com estas pessoas, cujas diferenças culturais se tornam pouco representativas, face àquilo que nos moveu até aqui e onde encontramos tanto em comum.
No dia seguinte acordamos e fomos para a Escola Wat Kanlaya - fica muito próxima da fundação. Havia uma festa de Natal onde fomos convidados a estar presentes. A tarde dividiu-se entre várias atividades relacionada com o Natal, em inglês. Cantamos, dançamos, brincamos e ainda houve tempo para fazermos a nossa própria arvore de Natal em papel.
Em algum momento me senti nostálgica por não estar no habitual Natal em família. A verdade é que o Natal, nos dias que correm, é mais visto como um pretexto para reunir família e amigos. Categorizamo-lo como "o dia mais quente do ano", porque nos sentamos à mesa com aqueles que nos fazem sentir amados; contamos histórias, rimos e avivamos memórias de tempos idos. Acho que precisamos de mais Natais nas nossas vidas, precisamos de amar mais e de julgar menos; precisamos de deixar de fazer do Natal um pretexto para nos reunirmos com aqueles que amamos e fazê-lo, simplesmente, porque são esses momentos que nos fazem sentir vivos.
Bangkok, 25 de dezembro de 2015.
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