Antes de chegar ao Vietname decidi estabelecer um roteiro para poder parar em alguns lugares que tenho muita vontade de conhecer. Juntei-me a mais dois amigos que fiz na Thong Tos Foundation e, parte do percurso, será feito na companhia deles. Ainda em solo tailandês, a primeira paragem seria Sukhothai.
O comboio estava marcado para as dez da noite. Chegamos à estação de Hua Lamphong, em Bangkok, cerca de trinta minutos antes da hora prevista. Ainda não tínhamos bilhetes. Acreditamos, ingenuamente, que iriamos conseguir bilhetes em terceira classe sentados. Disseram-nos na bilheteira que apenas havia bilhetes em pé. Pensamos: só mais uma aventura ao estilo thai, para uma viagem com a duração de seis horas e meia - acreditando na pontualidade dos transportes, algo pouco comum por aqui.
Conseguimos ir sentados a viagem toda; trocamos de lugar de acordo com a entrada e a saída dos passageiros. Pouco dormimos. Os comboios são desconfortáveis e o barulho que fazem é pouco propício ao exercício do sono. Além disso, há tailandeses a venderem tudo o que possam imaginar pelo comboio. Também pode acontecer conhecerem o Game e seu amigo - dois tailandeses que viajavam na mesma carruagem que nós. Enquanto o Game tentava confortavelmente relaxar no seu lugar, o amigo destabilizou o sono de alguns tailandeses, que aproveitavam a viagem para fechar os olhos. Primeiro deixou cair uma mala bem pesada em cima da cabeça de uma senhora que estava sentada ao meu lado - logo a seguir desfez-se em desculpas, vimos que não foi propositado; depois fez com que dois tailandeses, sentados no banco da frente, se levantassem várias vezes à conta de uma tenda de campismo que o amigo do Game quis guardar debaixo dos bancos. Percebemos que era só uma boa alma sem sono, porque acabou por ceder o seu lugar a uma senhora que ali estava, como nós, sem lugar sentado. Há sempre episódios destes, que nos animam e que fazem esquecer o desconforto ou as horas mal dormidas.
Chegamos a Sukhothai apenas cinco minutos atrasados - algo inédito nesta Tailândia sem horas certas. Precisámos de apanhar um tuk tuk e uma mini van até chegarmos ao destino. Este trajeto levou algum tempo e por isso, quando paramos no centro histórico de Sukhothai já o sol havia nascido.
Sem dormir, decidimos alugar bicicletas e começar a explorar a cidade, antes que o sol ficasse mais forte e nos dificultasse a vida. Deixamos as mochilas aqui no sítio onde alugamos as bicicletas. Inicialmente ficamos apreensivos, mas depois acabamos por perceber que ou as deixávamos ali ou íamos passar o dia a carregá-las.
A cidade está recheada de templos que contam a história de uma Tailândia medieval, numa altura em que Sukhothai era capital do Reino, antes de ser absorvida pelo Reino de Ayutthaya.
Passamos o dia a pedalar e depois do almoço decidimos descansar as pernas debaixo de uma árvore. Estava uma brisa ótima, como nunca tinha sentido antes aqui na Tailândia. Demos mais umas voltas pela cidade de depois resolvemos vir até à rodoviária para saber a que hora tínhamos autocarro para o próximo destino.
O autocarro é só às duas da madrugada, já cá estamos desde as seis da tarde. Aproveitamos o tempo de espera para comer umas sanduíches e para tomar banho - saiba-se que no lugar de um chuveiro há apenas uma torneira, um balde e uma bacia... ah, e alguns répteis, para que em momento algum haja a hipótese de nos sentirmos sós. Para nosso espanto existe wifi e eletricidade disponível para carregar baterias aos nossos gadgets. Há também muitos insetos cheios de teimosia e imunes ao repelente. Na verdade, acho que não nos falta nada.
A chegada a Chiang Mai está prevista para as sete da manhã. Vamos passar a noite de trinta e um de dezembro para um de janeiro nesta cidade, depois continuaremos para norte. Espero que possamos vir a encontrar muitos Games e amigos nesta viagem, e que o imprevisível thai style nunca pare de nos surpreender, só assim fará sentido.
Sukhothai, 29 de dezembro de 2015.

