quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Primeira paragem: Sukhothai

Antes de chegar ao Vietname decidi estabelecer um roteiro para poder parar em alguns lugares que tenho muita vontade de conhecer. Juntei-me a mais dois amigos que fiz na Thong Tos Foundation e, parte do percurso, será feito na companhia deles. Ainda em solo tailandês, a primeira paragem seria Sukhothai. 
O comboio estava marcado para as dez da noite. Chegamos à estação de Hua Lamphong, em Bangkok, cerca de trinta minutos antes da hora prevista. Ainda não tínhamos bilhetes. Acreditamos, ingenuamente, que iriamos conseguir bilhetes em terceira classe sentados. Disseram-nos na bilheteira que apenas havia bilhetes em pé. Pensamos: só mais uma aventura ao estilo thai, para uma viagem com a duração de seis horas e meia - acreditando na pontualidade dos transportes, algo pouco comum por aqui.
Conseguimos ir sentados a viagem toda; trocamos de lugar de acordo com a entrada e a saída dos passageiros. Pouco dormimos. Os comboios são desconfortáveis e o barulho que fazem é pouco propício ao exercício do sono. Além disso, há tailandeses a venderem tudo o que possam imaginar pelo comboio. Também pode acontecer conhecerem o Game e seu amigo - dois tailandeses que viajavam na mesma carruagem que nós. Enquanto o Game tentava confortavelmente relaxar no seu lugar, o amigo destabilizou o sono de alguns tailandeses, que aproveitavam a viagem para fechar os olhos. Primeiro deixou cair uma mala bem pesada em cima da cabeça de uma senhora que estava sentada ao meu lado - logo a seguir desfez-se em desculpas, vimos que não foi propositado; depois fez com que dois tailandeses, sentados no banco da frente, se levantassem várias vezes à conta de uma tenda de campismo que o amigo do Game quis guardar debaixo dos bancos. Percebemos que era só uma boa alma sem sono, porque acabou por ceder o seu lugar a uma senhora que ali estava, como nós, sem lugar sentado. Há sempre episódios destes, que nos animam e que fazem esquecer o desconforto ou as horas mal dormidas.
Chegamos a Sukhothai apenas cinco minutos atrasados - algo inédito nesta Tailândia sem horas certas. Precisámos de apanhar um tuk tuk e uma mini van até chegarmos ao destino. Este trajeto levou algum tempo e por isso, quando paramos no centro histórico de Sukhothai já o sol havia nascido. 
Sem dormir, decidimos alugar bicicletas e começar a explorar a cidade, antes que o sol ficasse mais forte e nos dificultasse a vida. Deixamos as mochilas aqui no sítio onde alugamos as bicicletas. Inicialmente ficamos apreensivos, mas depois acabamos por perceber que ou as deixávamos ali ou íamos passar o dia a carregá-las.
A cidade está recheada de templos que contam a história de uma Tailândia medieval, numa altura em que Sukhothai era capital do Reino, antes de ser absorvida pelo Reino de Ayutthaya.
Passamos o dia a pedalar e depois do almoço decidimos descansar as pernas debaixo de uma árvore. Estava uma brisa ótima, como nunca tinha sentido antes aqui na Tailândia. Demos mais umas voltas pela cidade de depois resolvemos vir até à rodoviária para saber a que hora tínhamos autocarro para o próximo destino. 
O autocarro é só às duas da madrugada, já cá estamos desde as seis da tarde. Aproveitamos o tempo de espera para comer umas sanduíches e para tomar banho - saiba-se que no lugar de um chuveiro há apenas uma torneira, um balde e uma bacia... ah, e alguns répteis, para que em momento algum haja a hipótese de nos sentirmos sós. Para nosso espanto existe wifi e eletricidade disponível para carregar baterias aos nossos gadgets. Há também muitos insetos cheios de teimosia e imunes ao repelente. Na verdade, acho que não nos falta nada. 
A chegada a Chiang Mai está prevista para as sete da manhã. Vamos passar a noite de trinta e um de dezembro para um de janeiro nesta cidade, depois continuaremos para norte. Espero que possamos vir a encontrar muitos Games e amigos nesta viagem, e que o imprevisível thai style nunca pare de nos surpreender, só assim fará sentido.  









Sukhothai, 29 de dezembro de 2015.


Até já, Bangkok!

Cheguei a Bangkok há três semanas. Sentia-me receosa, mas confiante de que estava a fazer exatamente aquilo que a minha vontade pedia. Vim sem planos e sem conhecer ninguém. Comigo trouxe umas peças de roupa, a câmara fotográfica e uma vontade imensa de conhecer mundo.
Vim sozinha, mas até então, em momento algum, me senti como tal. Os voluntários e todas as pessoas que se foram cruzando comigo por aqui, fizeram-me sentir em casa. Senti paz. Senti liberdade cada vez que peguei na bicicleta para pedalar sem rumo, entre o trânsito caótico desta cidade - perguntei-me, inclusivamente, há quanto tempo não andava de bicicleta em Portugal e não me soube responder. Senti amor cada vez que entrei na sala de aula e tinha os pequenos a correr em direção a mim para me abraçarem, enquanto gritavam “teacher, teacher…”. Ensinei-lhes em inglês as cores, os números até dez, os animais, os meios de transporte, a comida, o hi five e o hi ten… Mas a verdade é que a grande lição ficou do meu lado e eu não me podia sentir mais grata por isso.
Embora estas últimas semanas tenham passado à velocidade da luz, estou com a sensação de que já cheguei há imenso tempo. Acho que isto se explica pelo facto de ter vivido dias muito intensos onde observei, conheci e absorvi tudo o que me foi permitido.
Há cerca de uma semana recebi uma proposta de uma instituição para ir para o Vietname dar aulas de inglês, também em regime de voluntariado. Decidi aceitar. Vou trabalhar com crianças, tal como tenho feito na Tailândia. Por isso, hoje foi dia de dizer até já a Bangkok. Faço-o com muita nostalgia, por saber tudo o que vivi nesta cidade foi genuinamente bom e me encheu a mente de paz. Na aula desta manhã levei rebuçados para as crianças e prometi voltar. Assim será. Regresso à Thong Tos Foundation em Fevereiro, para dar e receber muito amor antes do regresso a Portugal.
Antes de chegar ao Vietname, aguardam-me alguns quilómetros de viagem divididos entre autocarros, comboios e tuk tuks, com algumas paragens pelo meio. Deixo-vos com uma reflexão com a qual me deparei no meio viajário e que tem enchido de sentido os meus dias pela Ásia. 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Foi Natal na Thong Tos Foundation

Na Tailândia cerca de 90% da população é budista, a restante percentagem é muçulmana. Sendo que o Natal se trata de um símbolo da religião cristã, é natural que os tailandeses não encontrem qualquer afinidade com esta celebração. Porém, para meu espanto, todos falam no Natal e, inclusivamente, celebram-no, mas não o associam a algo religioso. Quando perguntamos aos nossos alunos o significado do Natal, eles não sabem responder. O Natal para eles é o Pai Natal, a árvore de natal, as renas, as luzinhas que piscam e a neve (algo que nunca os seus olhos terão visto). Numa das aulas tentamos explicar-lhes que o Natal é a união da família, estabelecendo uma ligação como os restantes simbolismos.
Quando decidi embarcar nesta aventura, estava consciente de que o Natal iria ser passado de forma diferente, pela primeira vez em 23 anos. Mas, como eu, todos os voluntários que aqui estão estavam na mesma situação que eu. Por isso, ao contrário de nos lamentarmos, decidimos fazer o nosso próprio Natal. Os companheiros cariocas prontificaram-se para concretizar a ementa. Para o jantar houve salada, bifinhos de frango grelhados, arroz preto, tapas e feijão tropeiro; para a sobremesa uma deliciosa palha italiana. Acompanhamos o jantar com vinho australiano e a mítica Chang - uma cerveja tailandesa. 
Jantamos na sala da fundação. A nós juntaram-se a Miss Dang e o Sine - o thai que vive connosco aqui na fundação. Agradecemos o jantar conforme a religião cristã, em português e em holandês, e em muçulmano. Foi difícil pronunciar, mas no fim percebemos que "amén" é universal.
Antes da meia noite subimos para o terraço. Brindamos a entrada na madrugada do dia 25 de dezembro com a troca de prendas - uns dias antes decidimos fazer o amigo oculto e comprar algo simbólico para oferecer. 
O jantar de Natal prolongou-se pela madrugada ao som da música e das histórias que partilhamos. Foi fácil sentir-me em casa com estas pessoas, cujas diferenças culturais se tornam pouco representativas, face àquilo que nos moveu até aqui e onde encontramos tanto em comum.
No dia seguinte acordamos e fomos para a Escola Wat Kanlaya - fica muito próxima da fundação. Havia uma festa de Natal onde fomos convidados a estar presentes. A tarde dividiu-se entre várias atividades relacionada com o Natal, em inglês. Cantamos, dançamos, brincamos e ainda houve tempo para fazermos a nossa própria arvore de Natal em papel. 
Em algum momento me senti nostálgica por não estar no habitual Natal em família. A verdade é que o Natal, nos dias que correm, é mais visto como um pretexto para reunir família e amigos. Categorizamo-lo como "o dia mais quente do ano", porque nos sentamos à mesa com aqueles que nos fazem sentir amados; contamos histórias, rimos e avivamos memórias de tempos idos. Acho que precisamos de mais Natais nas nossas vidas, precisamos de amar mais e de julgar menos; precisamos de deixar de fazer do Natal um pretexto para nos reunirmos com aqueles que amamos e fazê-lo, simplesmente, porque são esses momentos que nos fazem sentir vivos.



Bangkok, 25 de dezembro de 2015. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sentir-me em casa a 10562km de distância

A Miss Dang chegou cá a casa cerca das dez da manhã, trouxe ingredientes e alguns ajudantes que já fazem parte da família. Um deles é o responsável pela limpeza do nosso andar e costuma dormir num dos quartos da fundação. Só sabe dizer "hello" e "how are you?", mas transparece uma alegria contagiante tão tailandesa, que é impossível ficar indiferente.
Ainda dormíamos quando chegaram. Acordamos com as suas vozes entusiasmadas e prontificamo-nos a por as mãos na massa - literalmente. Profissionalismo não nos faltou. A Miss Dang trouxe chapéus cor-de-laranja para todos e fez questão que usássemos enquanto amassávamos a massa para as panquecas. 
Era preciso fazer uma quantidade grande de massa para um evento que iria acontecer durante a tarde. Algo organizado pelos locais, onde a Miss Dang se faria representar, a si, à sua comunidade muçulmana e à escola que dirige. Explicou-nos que o evento iria reunir budistas e muçulmanos. Agradou-me desde logo saber que estas pessoas conseguem conviver em conformidade, independentemente das crenças religiosas que seguem.
Durante o processo houve tempo para ensinar a Miss Dang a contar até dez em português. Disse-me que em chinês era mais simples para ela, talvez porque a fonética tem mais semelhanças. Mas olhem que se saiu muito bem.        
O evento estava marcado as três da tarde. Dissemos que iriamos estar presentes, por isso, a Miss Dang presenteou-nos com umas t-shirts cor-de-laranja para usarmos. 
A festa teve lugar num templo aqui nas redondezas. Havia música, danças protagonizadas pelos mais pequenos, peças artesanais feitas por mãos locais, jogos para pequenos e graúdos, comida e muita alegria.
Logo no início repescaram-me para dar uma ajuda com as panquecas. Era preciso recheá-las com chocolate, leite condensado e açúcar; e, por fim, oferecer a quem quisesse. Encheram-nos de amor e carinho. Houve pessoas que sem nos conhecerem de lugar algum nos ofereciam comida e bebida.
Nunca tinha imaginado começar um domingo a fazer massa de panquecas para alimentar centenas de tailandeses. A probabilidade de me surpreender aqui, a cada dia que passa, é enorme. É também por isso que estar aqui tem feito sentido todos os dias, faz-me sentir em casa e feliz, muito feliz. Acho que encontrei o meu lugar no mundo. 

Aline, eu e Miss Dang.

Eu e Aline a amassar a massa para o pão.

Eu e o thai a amassar a massa para o pão.

Voluntários e crianças muçulmanas.

Sim a dar uma ajuda com as panquecas.

Eu a ajudar com as panquecas.

Júlia a dar uma ajuda na degustação.

Ambiente da festa.

Bangkok, 20 de dezembro de 2015.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Ensinar e receber milhões de abraços

Quando cheguei a Bangkok avisaram-me que só iria começar a dar aulas na semana seguinte. Uma vez que havia sido o aniversário do rei, a semana estava em standby. Aproveitei os dias livres para explorar e, sobretudo, para perceber as pessoas, as rotinas e esta cultura que me tem surpreendido todos os dias. 
No domingo, encontrei o Mr. Nop no pátio da escola - o marido da Miss Dang, a diretora da escola. Perguntou-me se já sabia onde ia dar aulas no dia seguinte. Respondi-lhe que não. 
É algo difícil compreendê-lo, porque ele fala pouco inglês, diz algumas palavras, mas não constrói frases exatas. Porém, é muito esforçado e digo-vos, é a pessoa mais querida a falar inglês que eu já vi. Ele é o típico tailandês baixinho, ri muito e é bastante expressivo. 
Perguntei-lhe se era possível falar com a Miss Dang uma vez que ela é mais percetível. Ligou-lhe de imediato e passou-me o telemóvel para falar com ela. Fiquei a saber que na segunda e na terça iria ficar com os "babies" dos dois aos quatro anos - como referiu o Nop, apontando insistentemente para as fotografias deles que estão na porta da sala de aula.  
A aula estava marcada para as dez da manhã. Acordei cedo e desci com meia hora de antecedência. Fiquei a espreitar da janela da sala e não tardou para que ficassem histéricos assim que me viram. 
Quando saíram da sala para lanchar, aproximei-me deles e já não me largaram mais. Abraçavam-me muito, riam ainda mais. Não demorei a sentir que aquelas crianças de pés descalços têm tudo o que interessa: amor, muito amor.
Entraram na sala em fila indiana. A professora deles, que por sua vez também não fala inglês, ficou a assistir à aula e ia tentando manter a ordem. Foi a Roshni quem manteve a comunicação entre mim e a professora. A Roshni é uma menina indiana, de onze anos, super inteligente, fala muito bem inglês e vem para a fundação dar uma ajuda nos momentos em que não tem aulas. 
A turma dos "babies" conta com certa de quarenta e cinco crianças. É difícil mantê-los atentos, por serem demasiado pequenos. Tentei ser o mais dinâmica possível. Através de imagens fui-lhes ensinando os números, as cores, os animais, as frutas e... ensinei-lhes o hi five e o hi ten. Deliraram. Fizeram uma espécie de Thai moche em cima de mim enquanto disputavam pelo meu hi five.
São demasiado ternurentos para serem de verdade. Tocam-me imenso, como se eu fosse um ser estranho, mas que os deixa muito felizes. Já me tinham dito que eles eram algo de outro mundo, poder sentir isso foi das melhores coisas que me aconteceu. Não falamos a mesma língua, mas estou certa de que nenhuma palavra pode substituir o carinho, o amor e os abraços que trocamos e que me têm preenchido o coração. 


Durante o lanche da manhã, antes da primeira aula.

Oferta dos materiais que trouxe de Portugal.
Foto de família.
A Roshni, de 11 anos.


   

sábado, 12 de dezembro de 2015

Bang Krachao: a paz em Bangkok

Acordamos cedo, apanhamos um tuk tuk e o BTS - uma espécie de metro de superfície que faz a travessia para o outro lado do rio. Quando chegamos percebemos que nos tínhamos esquecido do mapa da cidade. Tentamos pedir informações, mas é sempre difícil, uma vez que poucas pessoas falam inglês e também porque a forma como pronunciamos as palavras tailandesas, nem sempre é entendida pelos nativos. 
Fomos a um centro comercial, onde há um hotspot para turistas - só é necessário apresentar o passaporte e é atribuída uma password -, a partir daqui extraímos um mapa para tentar chegar a Bang Krachao. Bang Krachao é uma ilha cuja passagem é possível a partir de ferry ou por uma ponte. 
Ainda havia alguns quilómetros para caminhar. Fomo-nos perdendo pelos mercados que íamos encontrando e almoçamos num deles um prato típico - algo very spicy, claro está. É fascinante como este lado da cidade tem características bastante ocidentais. Existem muitos contrastes entre o thai que quer ser ocidental e o thai profundo, que prefere os mercados de rua aos centros comerciais que invadem esta parte da cidade. 
Já perto do destino final acabamos por nos perder, não estava fácil de encontrar. Deparamo-nos com um templo, onde entramos para explorar e voltar a ver o mapa. Estavam algumas pessoas no templo, entre elas crianças, a orar por um defunto que lá estava. 
A nossa presença foi notada. Não tardou a que nos presenciassem com inúmeros sorrisos e uma bandeja com quatro copos de água. É possível ficar indiferente a estes bons corações? Agradecemos com uma das poucas palavras que sabemos dizer em tailandês e bebemos aquela água, que nos deixou mais refrescados para continuar a caminhada. 
Antes de chegarmos a Bang Krachao, passamos numa central de correios onde entramos para pedir informações sobre a forma mais fácil de lá chegar. Entre o tailandês e o inglês lá nos conseguiram explicar. Já não havia que enganar. 
Chegamos ao porto, por fim. Fizemos a travessia de ferry. Foram cinco minutos maravilhosos na companhia de um condutor incrivelmente simpático, aliado a uma vista fenomenal para a ilha e para a cidade.  
Já em Bang Krachao alugamos bicicletas e fomos explorar a ilha. Tínhamos acabado de encontrar a paz, na frenética Bangkok. Lá é tudo mais calmo. Há habitantes na ilha; há carros e motas, que circulam seguindo à risca o desorganizado thai style, mas em pouca quantidade. Conhecemos o Iang que nos mostrou uma construção que estão a fazer e, antes de irmos embora, quis assinalar a nossa amizade com uma selfie e um pedido de amizade no facebook: "I'd like to see you again in Brazil or Portugal", disse com um sorriso contagiante. 
Seguimos a nossa nossa rota sem destino e, curiosamente, viemos dar novamente à casa do Iang. Aproveitamos para lhe pedir que nos enchesse as garrafas de água, mas ao invés disso trouxe-nos uma embalagem de garrafas para que levássemos água suficiente para o resto do trajeto. 
O dia terminou. Dei por mim a pensar no tempo que havia passado desde a última vez que andei de bicicleta em Portugal. Senti-me muito feliz em Bang Krachao. Senti amor e liberdade. 
Antes de vir para a Tailândia disse que, apesar da falta de humanismo ter vindo a ganhar cada vez mais expressão, ainda acreditava que as pessoas fossem o melhor do mundo. Isso tem feito sentido desde que cá cheguei. Estou fascinada com a forma como recebem, sorriem e cumprimentam cada vez que passamos na rua. Estou certa de que se assim não fosse, este lugar perdia grande parte do seu brilho.
Uma amiga perguntou-me se eu agora já percebia o porquê de ela sentir tanto a falta da Ásia na vida dela, depois de ter cá passado uma temporada. Agora sim, entendo. E desejo que um dia todos o possam entender da mesma forma. 

Copo de água oferecido no templo

Motorista do ferry

Templo em construção

Casa flutuante em Bang Krachao

Ponte flutuante em Bang Krachao



     Bang Krachao, 11 de dezembro de 2015.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Phad Thai à chegada

Quando o Mr Wa San me deixou na Fundação não estava ninguém para me receber. Disse-me, entre o tailandês e o inglês, que subisse até ao segundo andar. Assim foi. Quando cheguei à porta do andar em que viria a acomodar-me, estavam uma série de sapatos à porta, por isso tirei os meus também - este é um ritual budista que se cumpre quer nos templos, quer em casa daqueles que seguem esta religião. Aproximei-me e deparei-me com três voluntários sentados nos sofás a conversar - dois brasileiros e um holandês. 
Não tardaram em fazer-me as honras da casa e indicaram-me o quarto onde iria ficar. Há quatro quartos na fundação, dois deles têm ligação com aquele onde estou; são uma espécie de camaratas com beliches. 
Depois de me deitar uns instantes e de arrumar a bagagem, fomos jantar. 
Provei finalmente o famoso Phad Thai, num restaurante de rua que dizem ser o melhor da cidade nesta iguaria. Se é o melhor ou não, ainda é cedo para o dizer, mas estava delicioso. Acompanhamos com cerveja fresca e com uma boa conversa. 
Foi impossível sentir-me sozinha ou nostálgica depois de uma receção multicultural tão agradável. Não precisamos de nos conhecer muito bem, sabemos que estamos aqui por motivos semelhantes. É isso que nos identifica e que automaticamente nos aproxima. 
  
Phad Thai

Mr Wa San ou a melhor receção

Já em Bangkok! Apresento-vos o Mr Wa San, o taxista que aguardava por mim no aeroporto com uma folha A4, onde estava escrito o meu primeiro nome em letras maiúsculas.
Quando e viu, sorriu imenso, abraçou-me e foi a conversar comigo a viagem toda, que durou cerca de quarenta e cinco minutos. Falamos sobre a Tailândia, sobre mim e sobre ele.
Contou-me algo bastante curioso e pouco comum para nós. Perguntou-me quantos elementos tem a minha família. Ao que lhe respondi quatro. Com um sorriso de orelha-a-orelha diz: “a minha tem trinta”. Confidenciou-me que os progenitores vivem no campo, lugar que guarda para os dias de descanso. Já para trabalhar prefere Bangkok, porque tem mais pessoas, é mais agitada e permite-o, desta forma, amealhar mais dinheiro.
Esta receção deu um toque especial a esta aventura. Não me fui embora sem lhe dizer que ele fez jus à máxima que diz que a Tailândia é a terra dos sorrisos. Estou rendida!



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Obrigada Safan!

Quando aterrei em Istambul, ainda dentro do avião, desativei o modo de voo do telemóvel e alertei a família para a minha chegada, como prometido antes de embarcar no Porto. Mas quando o fiz, não dei conta que estava com os dados ligados e nada tardou até que ficasse sem saldo no telemóvel. Estava a partir daquele momento impedida de fazer ou receber qualquer chamada.
Depois de me despedir do Georges, segui para a porta de embarque, onde tentei apanhar internet novamente. Uma tarefa impossível. Tentei encontrar um Starbucks, que ficava próximo da 212 – porta de embarque -, mas nem ali a internet estava a funcionar. 
Quem tem boca dá a volta ao mundo, não é? Pedi ajuda a um senhor que lá estava, de seu nome Safan (turco), que tentou conectar-me novamente à internet do aeroporto, mas sem sucesso. Tentou inclusivamente ligar-me à internet do posto onde trabalha, mas não estava a resultar. Deslocou-se comigo até um telefone público, mas quando entrei na cabine, percebi que era necessário um cartão, pelo qual me pediram 15 dólares.
Estava quase a despedir-me do Safan, mas disse-me que aguardasse. Adicionou o número da minha mãe no Whatsapp, mas como isto também não resultou, passou-me o telemóvel para as mãos e disse para eu lhe enviar mensagem a partir dali. Foi o que fiz. 
Não tiramos fotografia, porque eu estava com imensa pressa, uma vez que a porta de embarque estava prestes a fechar. Quando cheguei a Bangkok tinha uma mensagem do Safan no Facebook a perguntar se tinha feito boa viagem. 
Não é a cultura ou a religião que nos fazem melhores ou piores, mas sim a nossa vontade de nos darmos ao mundo. 

Istambul-Bangkok

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"Traveling alone is about discovering yourself"

Eram 15h10 em Portugal continental quando cheguei à porta de embarque e, pelos vistos, já fora do tempo. Percebi-o quando me aproximei da dita porta e tinha um hospedeiro de bordo à minha procura. Nem deu tempo para arrumar as lágrimas no lugar.
Já no avião partilhei lugares com dois portugueses, viajavam ambos para Istambul em trabalho. Cruzamos algumas conversas de circunstância. Acho que ainda estava a tentar perceber que a viagem estava mesmo a acontecer. 
Em Istambul separei-me destes dois conterrâneos. Aguardavam-me cerca de três horas de espera até ao próximo voo - este já direto para Bangkok. 
Assim que entrei no aeroporto procurei pela minha porta de embarque, esta não aparecia em lugar algum. Dirigi-me a um funcionário que me disse que teria de aguardar. Assim o fiz. Aproveitei para dar carga ao meu telemóvel, enquanto me tentava conectar à "rede das redes", mas sem sucesso.
Estava sentada no chão, quando se dirige alguém até mim, para me perguntar se as fichas estavam a funcionar. Ao que respondi que sim. Com toda a simpatia do mundo, senta-se ao meu lado e começamos a conversar. Falo-vos do Georges, Libanês e fanático pelo mundo.
Perguntou-me o que fazia eu ali sozinha. Respondi-lhe. Apertou-me as mãos vezes sem conta ao mesmo tempo que me dizia que o mundo precisava de mais pessoas dispostas a ajudar, mais humanas. 
Também falamos sobre o mundo e as pessoas. Concordamos que viajar é das coisas mais importantes que podemos fazer na vida. Confidenciei-lhe que esta seria a minha grande viagem sozinha pela Ásia e que estava receosa por isso. Ao que me responde: "traveling alone is about discovering yourself". O chavão que me moveu até aqui não fazia sentido apenas para mim, pensei eu.
Entretanto fez-se tempo de voltar a procurar pela minha porta de embarque. Despedimo-nos com um abraço. Segui convicta de que o mundo está recheado de pessoas maravilhosas e no quão injustos somos quando generalizamos, quando criamos esteriótipos errados sobre diversas realidades sem conhecimento de causa. 

Georges e Sara no Aeroporto de Istambul 
8 de dezembro de 2015

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O visto

Depois de várias leituras percebi que os brasileiros são privilegiados em relação aos portugueses, no que diz respeito ao visto de entrada na Tailândia. Os portugueses têm direito a 30 dias de estadia no país, já os brasileiros podem permanecer durante 90 dias consecutivos. 
Achei que tinha a vida dificultada, porque vou permanecer na Tailândia por um período superior. Liguei para a embaixada da Tailândia em Portugal e pude esclarecer várias questões. 
O visto pode ser pedido em Portugal, na dita embaixada (em Lisboa ou em Matosinhos), ou no aeroporto, à chegada - no meu caso, em Bangkok. 
Para quem prefere pedir em Portugal, com antecedência, existem uma série de documentos que necessitam de ser apresentados na embaixada, nomeadamente, os comprovativos de compra da viagem e da estadia, passaporte e a quantia de 30€ (para um visto de 30 dias). Falo-vos do visto turístico, existem outros, mas que requerem alguma antecedência, porque necessitam de uma avaliação por parte da embaixada. 
Existem mais duas opções. Para quem pretende ficar mais tempo, o visto pode ser pedido com 2 ou 3 entradas no país, para 60 ou 90 dias, respetivamente. Mesmo saindo do país, estes dias continuam em contagem. 
Ponderei pedir o visto de 90 dias, mas teria de apresentar as marcações de 2 viagens para fora do país, e é algo que ainda não tenho definido. Portanto, o que vou fazer é pedir o visto de 30 dias e depois saio do país duas vezes, para ter acesso a mais duas entradas. 
Pareceu-me a opção mais vantajosa. Em primeiro lugar porque não necessito de planear já todas as viagens para além das fronteiras tailandesas. Além disso, a partir da segunda entrada são dados 30 dias, que começam a contar apenas no momento da chegada ao país - o que não acontece se pedirmos o visto em Portugal. 


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ratchaphruek ou Chuva de Ouro

Numa das muitas pesquisas iniciais que fiz sobre a Tailândia deparei-me com vários artigos que pretendiam caracterizar os elementos da cultura tailandesa. Foi aí que cheguei ao nome que muitos se intrigam e me perguntam pelo seu significado. Falo-vos de ratchaphruek. 
Ratchaphruek é o nome de uma flor com relevância na cultura deste país, essencialmente, devido à sua grande representatividade em torno da flora tailandesa. Esta flor amarela representa o budismo (religião seguida pela maioria da população) e o Rei. A cor amarela está associada à segunda-feira, o dia da semana que assinala o nascimento deste monarca.
Em português, ratchaphruek significa chuva de ouro. Não podia encontrar melhor definição para caracterizar a essência desta aventura pelo oriente.  

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Três Segundos de Coragem

Há muito que admiro a ousadia de quem faz as malas e parte em favor do desconhecido. A vontade de o querer fazer não é recente; mas os afazeres da vida foram tendo prioridade nas minhas rotinas e isso fez-me deixar em standby a vontade de partir. Aos 23 anos e prestes a terminar dois anos árduos de trabalho, divididos entre o mestrado e os vários projetos em que estive inserida, senti que seria o momento ideal para me desligar do stress do ocidente e me entregar ao mundo.
A pesquisa começou entre dezenas de páginas do mundo infindável que é a Internet. Comecei por procurar instituições, ao mesmo tempo que fui lendo blogs de jovens provenientes de vários pontos de globo, onde abordam as suas experiências pessoais de voluntariado na Ásia. Confesso que isto foi apimentando (ainda mais) a vontade de fazer as malas.
A partir de uma amiga, fanática pelos lugares e pelo mundo, cheguei ao Worldpackers. Uma plataforma criada por um grupo de jovens brasileiros, que agrega instituições e hostels de todo o mundo (ou quase), onde em troca de trabalho de várias ordens, os voluntários têm casa, comida e roupa lavada. E foi aqui que cheguei à Thong Tos Foundations. Esta fundação foi criada em 2010, com o objetivo de desenvolver o ensino do inglês em escolas públicas da Tailândia.
Entrei em contacto direto com a Thong Tos Foundation através do Facebook. Enviei-lhes o meu CV e expliquei-lhes que estava interessada em ingressar no projeto de ensino. Em simultâneo, e para ter a certeza que tudo corre da melhor forma, registei-me nesta associação, através do Worldpackers, que me forneceu de imediato um buddy de viagem, que vai estar em contacto comigo para me responder a todas as questões que possam surgir relacionadas com o voluntariado.
Fui aceite no projeto no dia 22 de setembro. Dão-me estadia e algumas refeições fornecidas entre a escola e a casa de uma família de acolhimento local, onde vou residir durante o tempo em que estiver a dar aulas. A Thong Tos Foundation tem parceria com cinco escola públicas da Tailândia situadas em várias regiões do país: Karnchanaburi, Ayutthaya, Krabi, Trad, Kao Yai e Bangkok. É na capital tailandesa que vou residir, pelo menos durante as três primeiras semanas, depois poderei mover-me até outras escolas.
Como um dia alguém me confidenciou, há decisões na vida em que “só precisamos de três segundos de coragem”.